|
Objetivo
O implante autólogo de condrócitos se propõe a regenerar o tecido condral lesado, através da formação de cartilagem hialina com constituição e propriedades biomecânicas semelhantes às da cartilagem original. Esta técnica foi primeiramente descrita na década de 80 para lesões do côndilo femural ou patela e mais recentemente tem sido preconizada para lesões do talo. Este trabalho tem como objetivo apresentar a aplicação do implante autólogo de condrócitos para lesões condrais, primárias ou secundárias, da superfície articular superior do talo (tróclea talar). O procedimento consta de dois tempos: no primeiro, realizam-se artroscopias do joelho e tornozelo; no segundo, realiza-se a implantação dos condrócitos cultivados.
Material e Métodos
A artroscopia do joelho serve para a coleta de amostra (aproximadamente 250mg) da cartilagem articular da borda súpero-lateral do côndilo femoral lateral ipsolateral à lesão talar. Esta região é considerada como de "menor carga" e não constitui risco para a integridade funcional do joelho doador. Durante a artroscopia do tornozelo faz-se o inventário da cavidade articular e a mensuração e desbridamento da lesão condral.
A amostra de cartilagem retirada do joelho é transportada para o Laboratório de Cultura Celular onde é submetida a digestão enzimática para o isolamento dos condrócitos. Os condrócitos são mantidos em meio de cultura com antibiótico e suplementação com soro autólogo (colhido do paciente durante a internação para as artroscopias) a 37ºC e 5% CO2. Após período médio de 4 semanas, atinge-se o número de células e as condições biológicas ideais para o implante dos condrócitos cultivados no sítio da lesão do talo direito. Através de osteotomia do maléolo medial, faz-se a exposição da superfície articular do talo e sua lesão que é regularizada e limpa. Seu fundo é recoberto por lâmina periostal retirada da região metafisária distal da tíbia, tomando-se o cuidado de posicionar sua face visceral para cima. Esta lâmina periostal é fixada ao fundo da lesão condral através do uso de cola de fibrina. Outro retalho de periósteo é suturado nas bordas da lesão servindo como cobertura isolante. Com esta técnica, denominada "sandwich", criamos uma verdadeira câmara periostal com dimensões idênticas às da lesão, dentro da qual são depositados os condrócitos cultivados e trazidos em suspensão. A aplicação de cola de fibrina em toda a circunferência da lesão, garante a impermeabilidade da junção cartilagem-periósteo transformando a câmara periostal em ambiente inviolável.
O maléolo medial é fixado ao seu local de origem através de parafusos metálicos e o paciente é mantido em aparelho suro-podálico, sem carga, por oito semanas.
Resultados
O primeiro implante autólogo de condrócitos para o tratamento de lesão osteocondral do talo, foi realizado em paciente de 24 anos, do sexo masculino, portador de FOT (porção póstero medial) em decorrência de trauma em inversão e rotação externa do tornozelo. O paciente encontra-se em no período de imobilização sem carga e, até o presente momento, a evolução da lesão é extremamente favorável.
Conclusão
Embora a exiguidade da observação não nos autorize a tecer comentários acerca dos resultados, consideramos de suma importância consignar o pioneirismo do procedimento em nosso meio.
|